XS650: Uma Moto Apaixonante
Nessa época eu já tinha habilitação para pilotar motocicletas, e podia pilotar motos grandes porque passei no teste pilotando uma Honda CB200 Vermelha, que era a moto do meu pai na época. Eu nunca gostei daquela moto, porque era pequena e muito lenta. Mas eu podia passear com ela, pelo menos.
Eu estava no cursinho para o vestibular e como eu tinha notas bem boas no Santa Maria, o Positivo e o Dom Bosco me deram bolsas de 100% para o Semi Extensivo e Super Intensivo. Então minha rotina era bem puxada com aula no colégio, no Semi e no Super, quase tudo ao mesmo tempo. Sendo assim, não podia perder tempo com transporte e usava a CB200 para ir à escola.
Um belo dia fui surpreendido por mais uma negociação relâmpago secreta do meu pai. Sem falar nada para ninguém, ele trocou a CB200 na Yamaha XS650 ano 1975 marrom, A MOTO que até hoje povoa meus sonhos.
Meu pai e eu sempre gostávamos de passear por todas as lojas de motos, de todas as marcas, e a Yamaha tinha umas motos muito legais. A XT500 era nossa favorita, com dois cilindros, design moderno e tamanho imponente. Num desses passeios surgiu uma XS650 usada e muito linda por um preço convidativo. A pintura marrom metálica com faixas em dourado, preto e branco era maravilhosa, o motor twin de dois cilindros verticais com as tampas de válvulas bem definidas lembrava as Norton clássicas, e o guidão largo no estilo custom ajudava ainda mais. Para minha surpresa, saiu negócio.
Fomos para casa felizes na nova motona - essa era grande e transmitia a sensação de moto grande. Já no primeiro contato percebi que esta moto era especial. O acelerador tinha um curso pequeno e era muito sensível. O motor vibrava bastante - chacoalhava. Os retrovisores e o guidão eram montados sobre coxins de borracha para amenizar, mesmo assim a vibração era muito acentuada. O acionamento da embreagem era super pesado, e até acostumar eu ficava com dor no braço.
Eu usava esta moto para ir ao cursinho de manhã, para casa na
hora do almoço e para o outro cursinho à tarde. Eu cursava Positivo, Dom Bosco
e o terceiro ano. Os cursinhos eram bolsas oferecidas aos bons alunos do Santa
Maria. Lembro bem do Dom Bosco, na Vicente Machado. Eu estacionava a moto
dentro do cursinho, entre os dois prédios e entrava com motor ligado acelerando
no meio do povo. Só faltava uma melancia no pescoço. Aquela XS650 era enorme e
chamava muita atenção.
Na volta para casa, eu gostava de acelerar na via rápida. O movimento era pequeno e não havia radares. Meu local favorito era a curva do Asilo subindo do Juvevê para o Cabral, que eu gostava de fazer raspando a pedaleira e fazendo voar faíscas. Eu tinha muita prática naquela curva. Um dia eu estava bem inspirado e, quando fiz a curva 'no limite', passei pelo meu pai que estava indo de carro para casa. Me gelou a espinha, mas eu continuei na mesma balada, na esperança de não ter sido reconhecido. Quando meu pai chegou em casa, me chamou num canto e disse apenas ‘está correndo hein guri?”. Ele não disse mais nada, mas deste dia em diante eu manerei no acelerador.
A promessa que a moto seria minha se eu passasse no vestibular continuava de pé. Logo
chegou o verão e o vestibular. Meus pais estavam viajando com meus irmãos
quando saiu o resultado: PASSEI!!! Eu estava hospedado na casa da minha
madrinha, fazendo companhia para a Kika e fui para o trote assim que saiu o
resultado, de XS650! Depois do trote voltei para casa todo pintado e sujo de
barro, vestido com um saco de estopa, tênis e capacete. Tomei banho, arrumei
minhas coisas e fui direto para Pontal do Sul, onde a Neide me esperava.
Naquele verão, a XS650 foi nossa companheira na praia. Passeamos muito pela
praia, enfrentando a dificuldade de atravessar o areão fofo até a beira mar.
Valia a pena porque a praia de Pontal do Sul é muito gostosa para andar de
moto. Foi um verão muito feliz.
Depois da praia, já de volta a Curitiba, eu e a Neide gostávamos de passear pela cidade na XS650, aproveitando nossos últimos dias de férias. Foi num destes passeios pelo Batel e parque Barigui que pedi a Neide em casamento. Não sei como consegui comprar as alianças, mas ela aceitou! Estávamos muito felizes, cheios de sonhos e de planos.
Mas antes do início das aulas na faculdade, meu pai começou a colocar um monte de defeitos na moto. Dizia que estava velha, que queimava óleo, que seria muito caro fazer o motor, que as peças eram muito caras etc. Ele também falava que a moto era pesada para eu ir à faculdade e que eu devia vender e comprar um carro. Na época, com o valor da moto dava para comprar um Passat Surf zero km. De tanto insistir e me apontar coisas melhores, meu pai me convenceu a vender a moto. E no lugar do Passat Surf zero km, meu pai me convenceu para comprar um Alfa Romeo 2300 ano 1975, amarelo, velho e bombardeado, mas cheio de coisas legais. Tinha toca fitas Sony amplificado, antena elétrica e ar-condicionado! Lembro a placa até hoje: AM0234.
O carro era bonito, mas nunca me conformei com a venda da
XS650 – até hoje. Infelizmente essa moto ficou muito pouco tempo conosco, acho que menos de 6 meses.
E coisa vendida com dó não presta. O comprador quebrou o pé
com um coice do pedal de partida, fundiu o motor e acabou sucatando minha
querida XS650. Nunca mais vi moto igual àquela, e ainda sonho um dia encontrar uma restaurada para comprar.


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