Jantar de Negócios na China


Com este relato estou estreando uma série de histórias curtas contando coisas pitorescas que nos aconteceram nos anos em que vivemos na Suécia e na China.

Nas minhas viagens para o interior da China para avaliar fornecedores, eu normalmente estava acompanhado por um comprador e por um engenheiro de desenvolvimento da Volvo, que pertenciam ao meu time. Não era possível viajar sozinho por causa do meu conhecimento limitado do idioma.

Chegamos na cidade, que pelos padrões da China era considerada pouco mais que uma vila, pois tinha apenas 2 milhões de habitantes e a estrutura era precária como um vilarejo de interior.

Fomos jantar com o fornecedor. Na entrada éramos ladeados pelas lindas garçonetes com roupas típicas bem asseadas nos desejando boas vindas numa espécie de cântico (soa como huan yin guan lin repetido muitas vezes), comum na maioria dos restaurantes mas considerado pitoresco pelos ocidentais.

Sentamos ao redor da inevitável mesa redonda com o prato giratório de vidro por cima, sempre tomando cuidado para o local onde cada pessoa iria sentar, intercalando uma pessoa Volvo com uma pessoa do fornecedor e colocando o convidado de honra (eu) numa posição estratégica de frente para a entrada.

Logo depois que sentei, veio uma garçonete com aquela raquete elétrica de matar pernilongos, pediu licença e colocou a raquete em baixo da mesa, sob a grande toalha vermelha que ia até o chão. Quando ela passou a raquete, foi uma metralhadora de estalos a cada mosquito eletrocutado. Fiquei assustado com a quantidade de mosquitos embaixo da mesa.

Depois disso, ela saiu e começou o serviço. A sequência é quase sempre a mesma na maioria dos restaurantes. Eles trazem o chá verde e servem uma canequinha para cada um, deixando a jarra no centro da mesa. Depois eles trazem pequenas tigelas com amendoim cozido ou torrado e com água viva seca cortada em tirinhas. Estes são os aperitivos típicos, mas podem haver outros dependendo do restaurante.

Depois dos aperitivos, eles trazem o Bai Jiou (álcool branco) e servem um 'martelinho' para cada um. Em alguns lugares, além do Bai Jiou, eles trazem um copo de vinagre para tomarmos como aperitivo.

A cerimônia como Bai Jiou, que é uma cachaça muito forte com gosto de querosene de aviação, feito com os mais diversos restos de cereais, é a cerimônia de Gan Bei (copo vazio). Todos brindam Gan Bei e tomam todo o copo em um gole só. Não pode fazer careta!

Depois do primeiro copo, começa uma competição para tentar deixar os convidados bêbados e é uma arte nos jantares saber parar antes de ficar alcoolizado sem ofender os anfitriões. Como eu sou estrangeiro e não queria me embriagar, eu normalmente inventava que estava tomando remédio. Como os estrangeiros são sempre vistos como idosos (Lao Wai), a desculpa colava. Um amigo expatriado, CEO de outra empresa, levava o sogro escocês para os jantares. O sogro derrubava toda a comitiva de chineses repetindo Gan Bei até todos caírem e não ficava bêbado. Eu gostaria de ter um sogro destes como arma...

Depois dos aperitivos, começavam a servir uma sequência de pratos dos mais diversos, mas sempre muito coloridos e nutritivos com vegetais, legumes, diversos tipos de carnes e peixes de aromas e sabores muito variados.

Em um destes jantares, nosso anfitrião comentou que a especialidade da casa era peixe, e eu achei uma ótima pedida. Os chineses sempre fazem questão de comer carnes bem frescas, então eles mantém vivos em aquários os peixes, camarões, mariscos, caranguejos e similares. 

Neste restaurante, o garçom pediu para eu afastar a cadeira quando pedimos peixe. Em seguida, ele abriu um alçapão que ficava bem embaixo da minha cadeira e colocou uma rede lá embaixo, no escuro. Quando ele tirou a rede, ela estava cheia de peixes vivos. Nosso anfitrião escolheu alguns peixes, que foram separados pelo garçom e colocados no chão ao nosso lado. Ele devolveu os outros peixes ao tanque, fechou a tampa e me convidou para voltar minha cadeira para o lugar, em cima do alçapão.

Eu achei muito engraçado e obedeci. Depois disso, ele pegou pela cauda os peixes que estavam se batendo no chão ao nosso lado e bateu com força as cabeças dos peixes sobre nossa mesa. Foi BAM- BAM e ele saiu com os peixes em direção à cozinha.

Não se passaram nem 5 minutos e o garçon voltou com o peixe pronto. Era uma grande caçarola cheia até a metade com óleo fervendo e a outra metade, flutuando sobre o óleo era pimenta dedo de moça frita. A camada de pimenta tinha pelo menos 10cm de espessura. O garçom então pegou uma escumadeira e começou a 'pescar' a maior parte da pimenta que estava sobre o óleo fervente até revelar a superfície do óleo e o peixe que estava lá dentro. Ele nos deixou uma escumadeira pequena para nos servirmos. O peixe era muitíssimo apimentado, mas muito gostoso. Morando na China temos que nos acostumar com comida picante.


Existem muitos outros pratos interessantes, mas vou fazer um outro Blog só para isso...

Depois que estávamos satisfeitos, vinha a pergunta sobre o que iríamos desejar como prato principal. No começo eu me surpreendia com isso mas logo acostumei que neste momento teríamos que decidir se iríamos comer arroz branco cozido (Mi Fan), arroz soltinho com legumes, ovos e carnes (Cao Fan) ou macarrão tipo Shop Suei (Cao Mien).

Depois do prato principal, normalmente o banquete estava encerrado, mas algumas vezes haviam opções de sobremesa também.


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Peru 2017 P9: Cusco a Nazca - Montanhas

Meu Amigo BILO