Memórias de Bebê
Eu não posso me gabar de ter uma memória privilegiada como minha irmã e minha mãe. Minha cabeça funciona para ação e para frente. Mesmo assim eu lembro de algumas coisas.
Cercadinho de Madeira
Nos meus primeiros anos de vida, eu morava com meus pais
sobre a garagem do Edifício Pizzatto, ao lado do Passeio Público de Curitiba.
Desta época, lembro que o tempo passava devagar, dividido em brincar e dormir,
comer e cagar, beber e mijar. Quando ficava doente, eu tinha a certeza de que
iria morrer a qualquer momento. Esta certeza está comigo até hoje. Eu sofria de
bronquite asmática, e o tratamento era por meio de injeções diárias – foram
quase 400. O que me ajudava a aceitar as picadas eram os potinhos das injeções,
que o médico me dava caso eu me comportasse. Aqueles potinhos eram muito
legais. Naquela época não davam doce nem pirulito para as crianças.
Mesmo com a bronquite asmática, eu era uma criança bem energética. Minha mãe diz que eu era impossível. Uma noite, meus pais saíram e deixaram meus avós maternos e minha tia cuidando de mim. Eu tinha pouco mais de um ano de idade. Minha mãe sempre conta que quando ela voltou do passeio eu falei minha primeira frase, denunciando meus cuidadores. Ela diz que eu falei: mamã... vovó vovô titi... papapa no nenê. Eu devia ter aprontado horrores, mas essa memória é da minha mãe e não minha.
O primeiro objeto que eu me lembro é um cercadinho de madeira clara. Eu era colocado lá dentro para dar sossego à minha mãe enquanto ela trabalhava e eu brincava ou dormia. Acho que os cercadinhos já vêm de fábrica com um truque escondido para os bebês fugirem. O meu tinha uma barra da grade frouxa, que eu girava de um lado para outro para ouvir o barulhinho legal. Tanto girei que tirei a barra do lugar, e com isso eu podia fugir do cercado quando quisesse. Mas eu não fugia muitas vezes porque o cercadinho era o meu lugar, meu mundo. Eu gostava dele.
Eu era bem pequeno quando ganhei meu primeiro veículo. Era um tico-tico azul com rodas brancas com círculos concêntricos azuis e vermelhos. Não lembro de andar no tico-tico, apenas que gostava bastante dele e que brincava muito na varanda da casa em cima da garagem. Minha mãe contratava uma menina para ser minha babá, porque eu era hiperativo. Minha mãe diz que eu era terrível. Um dia, quando eu tinha uns 3 anos, a babá me empurrou escada abaixo no tico-tico e eu quebrei o braço. Não lembro da queda nem do braço engessado. Só lembro o terror que eu tinha da a serra usada para tirar o gesso. Eu chorei muito com medo de decepar meu braço junto com o gesso. Fiquei pasmo quando aquela serra terrível fez apenas cócegas no meu braço.
Minha mãe conta que nessa época eu gostava de comer cabeças de fósforo. Nessa época já existiam os fósforos de segurança, que são os que conhecemos hoje e não são tóxicos. Mas existiam também os fósforos feitos com o produto químico fósforo, que é veneno. Um dia me intoxiquei depois de comer um desses palitos, que na época era conhecido como fósforo mágico. Diferente do palito de segurança, aquele podia ser aceso sobre qualquer superfície áspera e por isso era chamado de mágico. Minha mãe disse que eu fiquei catatônico e que fui levado às pressas para o hospital, paralisado, para lavagem estomacal. Eu não lembro disso, mas minha mãe tem uma memória bem forte. Minha irmã era bebê e ficou sozinha em casa enquanto meus pais me levaram ao hospital. Quando retornamos, os vizinhos estavam preocupados na porta do apartamento porque um bebê estava chorando lá dentro e ninguém atendia a porta.
Avião Ouro e Prata
Quando eu era pequeno, queria ser aviador. E adorava meu avião de plástico, com fuselagem dourada e asas prateadas. Esse avião era bem grande e embalava meu sonho de ser aviador. Eu falava deste sonho para todo mundo. Não aconteceu, mas não fiquei frustrado. Depois que aprendi a ler, meus pais faziam eu descobrir livros, revistas e textos interessantes, muitas vezes descrevendo as técnicas de pilotagem de aviões, a descrição e funcionamento dos aviões, os tipos de nuvens e sua importância para a aviação, história das tecnologias e coisas afins. Nesta foto, o avião era meu favorito, mas eu também gostava do caminhão de madeira, do carro de bombeiros e da moto.


Adorei as histórias Marcelo!! Despertam memórias e a mãe acaba contando mais detalhes... como na história q vc ficou catatônico por ter comido uma caixa de fósforos, e fui deixada sozinha no berço enquanto o pai e a mãe levaram vc pro hospital. Quando a mãe chegou em casa tinham várias visitas na porta estranhando ouvir somente o choro do bebê e ninguém atender a porta. Certamente este episódio aconteceu num domingo.
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