D7: 18/10/2017
Acordamos cedo em Potosi pois nosso plano era rodar 250km por asfalto até Uyuni, visitar o Salar de Uyuni, o marco do Rallye Dakar e o Cemitério de Trens e depois retornar os 250km no fim do dia para pernoitar novamente em Potosi. Mas este plano não resistiu nem ao café da manhã. Só de descermos do apartamento até o restaurante e conversarmos um pouco já estávamos cansados e com dor de cabeça devido à altitude e ao ar rarefeito. E precisávamos achar urgente uma farmácia. Nossa pasta de dentes e desodorante simplesmente explodiram para fora do frasco quando abertos. O shampoo também. Impressionante o efeito da diferença de pressão nestas coisas e na água também. Uma garrafa de água mineral sem gás comprada em Tilcara ficou borbulhando mais que água com gás quando aberta na altitude. Além disso, precisávamos comprar urgente a pílula da altitude para acalmar a dor de cabeça e um monte de folhas de coca para mascar e melhorar a disposição. Resumo: tiramos Uyuni do roteiro.
Observação: A melhor rota na Bolívia entrando por La Quiaca é dirigir-se a Uyuni a partir de Tupiza. Nós não fizemos isto porque em 2017 a estrada estava bem precária com trechos em construção e trechos de rípio pesado. Um amigo fez este percurso em 2019 e encontrou o trecho de Tupiza a Uyuni todo asfaltado, novinho. Depois de Uyuni, a visita a Potosi é MANDATÓRIA.
Decididos aproveitar um dia visitando Potosi, começamos por comprar a famosa 'Sorojchi Pill' para combater o mal da altitude. Encontramos uma farmácia ao lado do hotel e já aproveitamos para comprar o desodorante e pasta de dente também.
Conforme havíamos percebido na chegada, a cidade é antiga, as ruas são estreitas, de mão única e os micro ônibus formam a maioria dos veículos em circulação. Pela foto abaixo, dá pra ver como é difícil dividir a rua com os ônibus.

Além disso, fui pesquisar um pouco pela cidade, pois nosso plano era usar Potosi apenas como dormitório. Fiquei surpreso ao saber que a cidade foi fundada em 1524 e que foi a cidade mais rica do mundo no século XVI, com as ruas pavimentadas com prata. Potosi fica aos pés de uma montanha que é na realidade um depósito gigante de prata que vem sendo explorado ininterruptamente há quase 500 anos. Este fato, aliado ao valor histórico da prata, que nos séculos XVI e XVII era valorizada muito acima do ouro, nos chamaram atenção. Quando perguntamos à dona do hotel sobre opções de turismo em Potosi, logo descobrimos que um dia seria pouco tempo. Ficamos também sabendo que aquela enorme casa onde ficava o hotel havia sido presente de um rico mercador à sua amante, que a casa foi usada como hospedaria desde aquela época, e que o piso inferior onde ficava a recepção do hotel e o restaurante era o alojamento dos escravos. Descobertas muito interessantes.


Agendamos uma visita guiada à mina para o período da tarde e resolvemos dedicar a manhã para explorar a cidade. A altitude era um desafio para andarmos a pé mas a largura das ruas, o movimento e a falta de navegação por GPS tornava impensável o deslocamento com as motos.
Decidimos sair andando devagar começando a subir o morro por algumas quadras. Ao chegarmos numa praça com uma linda vista da mina, encontramos uma loja que vendia artefatos de prata. Foi uma sessão de compras bem interessante porque os preços eram muito convidativos e o atendimento era bem simpático. Na foto abaixo, o morro atrás do Jairo é a mina de prata.
A próxima foto dá uma idéia da dimensão desta montanha. A meia altura, um pouco para a direita, é possível ver uma usina para moagem de rochas. A torre deste moinho tem uns 5 a 6 andares de altura.
Deu para ter uma idéia do tamanho desta montanha? E pensar que ela é feita quase que totalmente em prata, que vem sido minerada desde 1524 e que, atualmente, quase 10000 pessoas tabalham perfurando esse verdadeiro queijo suíço. O povo de Potosi tem bem claro o conceito que algum dia essa montanha vem abaixo, de tanto material que foi retirado do seu interior.
Depois de descansarmos um pouco, descemos a ladeira em direção ao centro da cidade, a menos de 1km da praça onde compramos as pratas. Descer é mais fácil.
Chegando à praça central, ficamos positivamente surpresos pela limpeza e beleza arquitetônica da cidade. O Museo de la Moneda, o centro bancário, a igreja e o Colégio Nacional Pichincha são muito bonitos. E ficamos impressionados com os preços das coisas. Se quiséssemos comprar Notebooks ou Câmeras, certamente conseguiríamos preços incrivelmente baixos em Potosi. E os restaurantes também eram muito baratos. Resolvemos almoçar num local bem requintado, onde fomos bem servidos e gastamos pouco. Mais uma vantagem para Potosi.
Depois do delicioso almoço no "El Tenedor de Plata", voltamos ao hotel para esperar a Van que nos levaria até a mina. Essa visita também foi muito rica culturalmente e surpreendente em diversos aspectos.
Nossa primeira parada foi numa área de comércio popular na base da montanha. Ali se encontra tudo para os mineiros. De bananas de dinamite a garotas de programa expostas nas portas das lojas. E fomos orientados a comprar um kit presente para cada um de nós. Esse kit deveria ser oferecido aos mineiros durante a visita. O kit, que não inclui dinamite, é composto por um fardo de folhas de coca, uma garrafa de 2,5 litros de refrigerante, um frasco de 300ml de álcool potável com 99% de pureza (cerveja tem 17%), alguns tabletes de coca prensada com saborizantes (menta e outras ervas) para serem mascados junto com as folhas de coca e mais algumas guloseimas colocadas em uma sacola pástica para cada visitante.
Devidamente abastecidos, voltamos para a Van e começamos a subir o morro, mas logo paramos novamente. Para visitar a mina, é necessário usar uniformes e equipamentos de proteção individual.
Depois de equipados, voltamos à Van e subimos o morro até a entrada da mina. Uma coisa que me chamou a atenção desde que entramos na Bolívia.: a quantidade de caminhões Volvo antigos que circulam no pais. E são veículos em bom estado, muito usados mas bem conservados.
A mina tem muitas entradas, pois está em atividade e mais de 10000 pessoas trabalham lá dentro. No local onde paramos, dava para ver a cidade inteira lá embaixo. Pegamos nossas sacolas com o presentes para os mineiros e entramos nas galerias. A Neide e a Jacque ficaram com medo e preferiram esperar lá fora na Van.
Como a mina está em atividade, o guia nos recomendou bastante cuidado para ficarmos todos juntos e explicou que os mineiros empurram manualmente os vagões com minério, que pesam mais de 2 toneladas e que não podem parar. A instrução era para nos espremermos contra as paredes caso viesse um vagão na nossa direção e para colocarmos uma sacola com presentes dentro do vagão.
Os mineiros bolivianos são descendentes dos Incas, que foram escravizados pelos espanhóis no início das atividades em Potosí. Como a prata tinha muito valor, os espanhóis tiveram medo de roubos então colocaram estátuas de demônios dentro das minas para espantar os nativos. Mas os espanhóis não conheciam a mitologia Inca.
Para os Incas, a terra é a deusa da fertilidade, Pachamama, e dela vem todas as riquezas deste mundo. E as riquezas são cridadas por Pachamama depois de fecundada por uma entidade masculina. E as figuras de demônios plantadas pelos espanhóis acabaram se tornando o símbolo desta entidade masculina, que foi batizada de Tio. Então até hoje as estátuas do Tio são colocadas no fundo das minas, numa galeria pouco usada, e de lá o Tio vai fecundar as jazidas de prata. Repare o tamanho do documento do Tio, forte e rijo. Os mineiros colocam oferentas para o Tio (álcool, coca e doces). Esta visita na mina foi muito interessante, e o guia nos contou muitas curiosidades.
Depois da visita à mina, voltamos ao hotel para descansar (a falta de ar estava bem forte) e para nos preparar para prosseguir viagem no dia seguinte.
Potosi foi uma grata surpresa na nossa viagem, e é uma cidade que merece ser incluida em qualquer roteiro pela Bolívia.
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