Um dia no Escritório em Shanghai


Quando mudei para a China, fui trabalhar num escritório no último andar de um edifício. O número do andar era 36 mas na realidade devia ser 32° porque na China eles não usam o 4° andar (o som do número 4 em Chinês é igual a morte), nem o 13°, nem o 22° e nem o 31°.  Se o empreendimento imobiliário colocar esses números nos andares, será difícil vender porque os Chineses são bem supersticiosos.

Voltando à história, nos primeiros 6 andares do prédio onde eu trabalhava havia um Shopping Center bem movimentado. Os shopping centers na China têm uma distribuição padronizada de lojas por andares. O primeiro andar inteiro é dedicado a cosméticos, onde só vendem cremes, maquiagens e coisas afins. No primeiro andar também há alguns quiosques de muidezas. O segundo andar é de coisas femininas, o terceiro tem coisas masculinas, o quarto vende coisas para crianças, o quinto tem coisas para a casa e esportes e o sexto andar é de restaurantes.

Existem lanchonetes pequenas e quiosques de comida nos outros andares, mas o sexto andar concentra os maiores e mais sofisticados restaurantes. 

Para os chineses, todos os vegetais e animais podem servir de alimento, com exceção dos tóxicos e venenosos. Pouca coisa fica fora do cardápio. E para os chineses não há nada mais importante que a comida. Por exemplo, o equivalente ao cumprimento 'tudo bem?' no Brasil é 'você já comeu hoje?' na China.

A diferença de cultura já salta aos olhos na primeira hora, ao pegar o elevador para chegar no escritório. Não há fila. As pessoas ficam aglomeradas tentando entrar antes e ter o elevador só para si. Para isso, cada pessoa que entra no elevador seleciona o seu andar e já aperta o botão para fechar a porta. O próximo tem ser rápido para segurar a porta e então fazer o mesmo, e assim por diante até lotar o elevador. Todos os dias. Os chineses ignoram totalmente a existência das outras pessoas, a não ser que sejam amigos ou parentes. Se não forçamos a barra, há risco de demorar bastante até conseguir embarcar no elevador.

Falando em comida, é notável observar os hábitos alimentares da manhã, antes de entrar no escritório. As pessoas carregam o celular em uma das mãos e o lanchinho na outra. O lanche favorito é o copo com frango. 

O copo com frango é comprado na farmácia, onde eles colocam uma panela elétrica sobre o balcão, bem ao lado da caixa registradora. Esta panela mantém a água bem quente, quase fervendo, o tempo todo, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os comerciantes colocam pedaços de carne de frango e deixam cozinhando o tempo todo. A água nunca é trocada, apenas completada e se transforma numa espécie de caldo amarelado com cheiro bem forte de frango. As pessoas passam na farmácia para comprar alguns pedaços de frango no espeto, que são colocados num copo plástico cheio de caldo. E vão direto para o elevador com o copo na mão. Muitas pessoas já começam a tomar a sopa mesmo antes de chegar nos seus andares. Chinês tomando sopa é outra história. Eles fazem MUITO barulho para tomar a sopa. Segundo dizem, o barulho serve para potencializar o paladar. O costume dos japoneses e coreanos é o mesmo.

E esse cheiro de frango cozido de manhã é uma memória bem forte que tenho da China.

Também há um lanche típico para o fim do expediente: o famigerado Lao To Fu, que é Tofu fedido, envelhecido e fermentado assado em pequenas churrasqueiras portáteis e servido na rua. O cheiro deste lanche me dava ânsia de vômito todas as tardes porque parecia valeta aberta com cocô de cachorro ao sol. ECA! Meu motorista me disse que o único jeito de me livrar desta sensação seria provar o tal lanche. Criei coragem e provei. Era horrível, mas o gosto era muito menos pior do que o cheiro. Assim me curei da ânsia de vômito de todas as tardes após o trabalho. Mas nunca mais provei daquela iguaria horrível!

O mais interessante era observar a culinária chinesa na hora do almoço. Para começar, o escritório se dividia em duas turmas, os executivos e os operacionais.

A turma dos operacionais, recepcionista, motorista, auxiliares e executivos pão duros, almoçavam no próprio andar do escritório, que contava com uma sala grande equipada com mesas, cadeiras, micro-ondas, geladeira e fogão elétrico. As pessoas levavam a comida de casa, esquentavam e comiam no escritório. Eu evitava entrar nessa sala por causa do cheiro forte, mas o local era bem fechado e não incomodava o resto do ambiente.

A turma dos executivos saía todos os dias para almoçar em algum restaurante. Eu fazia parte desse grupo. Cada dia escolhíamos um lugar diferente pois existiam centenas de opções na vizinhança e também no sexto andar. Na rua, além dos restaurantes chineses, que são divididos em diversas culinárias regionais, há os italianos, os internacionais, os japoneses, os coreanos e as lanchonetes tipo Subway, Mac Donalds e KFC, e há escolhas com todo tipo de preço e sofisticação.

Normalmente nós gostávamos de ir no restaurante Chinês tradicional do sexto andar, que era o restaurante âncora do shopping. Nesse andar também havia restaurantes internacionais e um Coreano muito bom. Haviam diversas turmas no escritório que almoçavam juntas. Meu grupo normalmente tinha entre 8 e 10 pessoas.

Na entrada do restaurante, as garçonetes enfileiradas cantavam boas vindas e quando a última pessoa do grupo entrava, uma delas tomava a frente e nos levava à nossa sala e nossa mesa. O restaurante era tão grande que era dividido em diversas salas.

Logo que entrávamos e nos sentávamos, era servido o chá verde. O bule ficava na mesa e era sempre mantido cheio. A única bebida que acompanhava nossos almoços era o chá verde. E esta característica se repetia em todos os restaurantes chineses e muitos internacionais.

A culinária da China se divide por regiões. A região norte, mais fria, se caracteriza por comidas mais apimentadas. A região de Beijing, tem comidas mais salgadas. A região de Guang Dong, perto de Hong Kong, se caracteriza pelos supermercados e pela variedade de frutos do mar vivos e alimentos exóticos (até para os chineses), a região central tem um pouco de culinária estilo árabe e a região de Shanghai se caracteriza pelos molhos agridoces.

Logo depois do chá, eram servidas as entradas, que normalmente eram água viva ao vinagrete e amendoim. Eu preferia o amendoim.


Enquanto conversávamos e nos distraíamos com os aperitivos, a turma apontava um responsável por fazer o pedido. Uma pessoa pedia os pratos para todos. Se éramos em 8, ele pedia 8 pratos e depois de comermos esses pratos escolhíamos o principal. 

A escolha do cardápio era uma responsabilidade e tanto porque esse restaurante tinha todos os tipos de culinária chinesa em um só lugar, e era tudo de ótima qualidade. O cardápio era um livro com uns 3 cm de espessura com centenas de opções. Para fazer o pedido, o responsável escolhia algumas verduras, alguns legumes, algumas carnes, peixes e aves. Um dos meus favoritos era o peixe agridoce à moda de Shanghai, mas são tantas coisas gostosas que fica difícil descrever.


Todos os pratos eram compartilhados entre todos a partir de uma plataforma giratória no centro da mesa, que era sempre redonda. Nós não usávamos pratos individuais, pegávamos direto do centro da mesa para a boca. Tínhamos apenas umas pequenas tigelas para nos ajudar com os alimentos mais líquidos. E não usávamos talheres, apenas chopsticks, ou palitos. E cada um recebia uma pequena tigela com arroz cozido, sem sal. A mesa girava, nós nos servíamos, comíamos e conversávamos ao mesmo tempo. Os almoços eram bem barulhentos e festivos. Todos os dias. E depois de acabarmos com os pratos, era hora de escolher o principal: arroz ou macarrão frito, que era servido em uma porção bem generosa para ninguém sair com fome. Esses últimos pratos eram parecidos com o que temos no Brasil com o nome de Macarrão Shop Suey e Arroz Chop Suey.

É claro que durante o dia, fora do horário das refeições, a gente trabalhava muito duro, mas não tem graça contar casos de trabalho. Isso não interessa.

Aqui eu descrevi apenas um restaurante e um tipo de comida. Logo vou postar mais material sobre a culinária chinesa e coisas exóticas que experimentei por lá.

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