D6: 17/10/2017
Até agora a viagem, para mim, tinha percorrido terras já conhecidas e expliradas em viagens anteriores. A partir de hoje em diante, todos nós iríamos encarar o desconhecido da famigerada Bolívia.
Acordamos cedo porque a quilometragem planejada no dia, até Potosi, era de 520km e teríamos que fazer os trâmites aduaneiros. E não tínhamos idéia do tempo necessário para todas as burocracias.
Tomamos café, carregamos as motos e estávamos prontos para pegar a estrada às 0800h da manhã quando apareceu uma pessoa no hotel pastoreando um bando de lhamas e alpacas. As lhamas são os animais maiores e facilmente vistos no Brasil. As alpacas são menores e mais fofinhas, com cara de cordeirinho de desenho animado. Não resistimos à tentação de tirar algumas fotos.
Colocamos as motos na estrada e fomos para o Norte. A RP9 corta a Quebrada de Humahuaca e vai até La Quiaca, que faz fronteira com a Bolívia. A subida para o altiplano é bem suave e já começa logo depois de Tilcara.
Paramos às 0900h para fotografar as montanhas coloridas e a Puente del Diablo. Tinha um bando de lhamas selvagens na beira da estrada.
Logo depois, passamos La Quiaca e entramos na Bolívia. A Aduana fica na cidade boliviana de Villazón. Encontramos dois motociclistas da Áustria viajando em motos alugadas e eles nos apontaram a direção.
Chegando na Aduana, pediram nossos passaportes e os documentos das motos, carimbaram os passaportes e nos mandaram seguir viagem. Eu estranhei porque sabia que precisávamos de uma declaração da entrada das motos na Bolívia. O guarda aduaneiro foi bem ríspido comigo e nos mandou seguir viagem, dizendo que estava tudo certo e que não precisava declaração nenhuma.
Aqui foi o momento de maior potencial de desastre para nossa viagem. Atravessamos a Bolívia sem a declaração de entrada e isso poderia nos fazer perder as motos, que poderiam ser confiscadas naquele país. E só ficamos sabendo disso dias depois, quando saímos da Bolívia para o Peru por Desaguadero.
Fica o alerta: entrando na Bolívia ou no Chile é muito importante exigir a declaração de entrada das motos no país.
Logo depois de sairmos de Villazón, paramos para fotografar o portal de entrada na Bolívia.
Estávamos rodando bem. Estradas desertas, asfalto bom e poucas curvas. E conseguimos atravessar a fronteira e fazer os trâmites aduaneiros bem rápido.
Ainda não eram nem 1100h da manhã e agora faltavam menos de 350km até Potosi. Minha idéia era chegar ao destino antes das 1500h, então apressei o ritmo. Nesta parte da Bolívia, a topografia é bem plana e o ar rarefeito possibilita a visão num horizonte bem distante. Não rodamos nem 10km quando fomos parados pela polícia. Eles nos haviam flagrado com o radar a mais de 3km de distância, e estávamos a mais de 120km/h. Os guardas nem pediram nossos documentos mas fizeram aquele teatro dizendo que tinham que nos prender porque estávamos correndo demais. No fim, demos uma graninha para eles, menos de 100 Reais, e seguimos viagem no mesmo ritmo.
A primeira cidade depois da Fronteira era Tupiza. Eu sabia que tínhamos que prestar atenção naquela cidade para continuar na Ruta 14 em direção a Potosi, porque havia um entroncamento com a Ruta 20 até Uyuni. À medida que nos aproximávamos de Tupiza, a topografia ficava mais acidentada e a estrada tinha cada vez mais curvas fechadas, muitas delas sem área de escape e com precipícios ou rios caudalosos bem perto da pista.
Aos poucos, a situação na estrada começou a ficar estranha. Cruzamos diversos carros, vans e ônibus lotados vindo no sentido contrário, e não passamos ninguém no mesmo sentido que nós. Não demorou muito para nos depararmos com uma barreira na estrada, e já havia uma fila de caminhões parados. Seguimos com a moto para a frente da fila, como sempre, imaginando que seria algum pedágio ou acidente.
Quando chegamos na barreira, vimos que era uma multidão de camponeses, e a maioria eram mulheres, donas de casa com seus filhos. Muitas estavam sentadas conversando, cozinhando ou costurando. Parecia pacífico mas havia algumas pessoas exaltadas gritando palavras de ordem. Fomos perguntar e disseram que a estrada estava fechada, que ninguém podia passar e que só liberariam a passagem dali a dois dias. Algumas pessoas foram simpáticas e outras ameaçaram nos agredir. Conversamos com bastante gente e nos aconselharam a voltar até uma escola alguns quilômetros atrás e tomar um atalho de rípio que desviaria o bloqueio. Outras pessoas diziam que o atalho estava bloqueado também.
Tentamos conversar e convencer o pessoal a nos deixar passar empurrando as motos mas não adiantou. Já passava do meio dia, então resolvemos voltar para a escola e tentar o atalho de rípio.
As mulheres ficaram um pouco nervosas e decidiram pedir para usar o banheiro da escola, além de pedir informações sobre o caminho. Aqui foi mais uma experiência de Bolívia. A pobreza e precariedade da escola era muito impressionante. Ficamos ainda mais impressionados quando descobrimos que o motivo do bloqueio é que o governo havia prometido água encanada para a cidade e que já se haviam passado mais de 11 anos e eles ainda não tinham água. A água é muito escassa naquela região.
Em contraste com a precariedade das construções e com a simplicidade das vestes das pessoas, os alunos se apresentaram com uniformes de camisas brancas limpas e impecáveis. E todos, mesmo os camponeses, se comunicaram conosco com muita educação. Claro que haviam os exaltados, mas apesar das aparências, todas as pessoas com quem conversamos eram bem educadas.
A nossa passagem pela escola e o fato de usarmos os banheiros deles foi uma festa. O professor parou a aula e levou os alunos para fora para ver as motos e tirar fotos. Todos se mostraram muito educados e disciplinados. Esta foi uma das impressões mais fortes que tive na Bolívia.
Quando perguntamos sobre o caminho de rípio, o professor nos falou que a estrada era péssima, que o caminho era muito mais longo e que provavelmente nós seríamos parados em outra barreira mais para a frente. Decidimos então voltar para a estrada principal e tentar nossa sorte novamente.
Já eram quase 1500h quando retornamos à barreira principal e não houve jeito de convencermos o pessoal a nos liberar. Pelo que entendemos, precisava a autorização de alguma liderança e eles teriam a troca de turno e fiscalização pela liderança entre 1700h e 1800h. Decidimos esperar.
Continuamos insistindo o tempo todo, sem sucesso. Algumas pessoas nos falaram que não seria possível chegar em Potosi, que era muito longe, que eram mais de 250km, que iria escurecer e a estrada era perigosa com muitas serras e curvas e que deveríamos pernoitar em Tupiza mesmo. E assim foi passando o tempo até que chegou uma caminhonete com uma galera na caçamba. Muita gente falou ao mesmo tempo e nós, mesmo de longe, vimos que falaram da gente.
Não mencionei aqui, mas o tempo todo o Luiz estava furioso. Fumava, gritava, falava alto, xingava, gesticulava e esbravejava. Ele queria abortar a viagem e voltar imediatamente para casa. Nervoso kkk.
Depois que a caminhonete foi embora, o movimento acalmou um pouco e eu fui novamente pedir para nos deixarem passar empurrando as motos até a próxima barreira, que ficava uns 100m à frente, como se fôssemos pedestres. Desta vez deu certo. Já era quase 1800h quando nós colocamos as coisas em cima das motos e fomos empurrando devagar, cada casal empurrando sua moto, bem quietinhos e de cabeça baixa. Quando passamos a segunda barreira, colocamos as jaquetas, capacetes e luvas e seguimos viagem, certos que estávamos livres do bloqueio.
Já estava tarde e não podíamos perder mais tempo. Rodamos uns 5km quando vimos uma ponte à nossa esquerda e a cidade de Tupiza logo após a ponte. Então fomos parados novamente. Desta vez era uma turma grande de rapazes jovens e barulhentos. Eles disseram que nós não poderíamos prosseguir e que era para entrarmos na cidade e nos hospedarmos num hotel.
Foi tenso, mas quando eu falei que o chefe nos havia liberado na barreira anterior, eles se acalmaram. Ainda nos pediram um pouco de coca para mascar. Eu disse que sim, e quando tirei do bolso e ofereci toda a coca que eu tinha (apenas um punhado), eles riram muito e nos mostraram o saco enorme de coca que eles tinham (dava uns 10 litros de volume). Depois disso, fomos liberados. Isso tudo aconteceu muito rápido e nenhum de nós havia tirado o capacete ou luvas. Agora sim estávamos livres!
Rodamos mais uns 3 ou 5 quilômetros e nos deparamos com outra. Esta era bem grande, maior que a primeira. E o pessoal parecia mais organizado e barulhento. Aqui haviam muito mais homens do que mulheres, e mais adultos do que jovens. Eles pareciam mais perigosos que a turma anterior. Quando eu repeti a história que o chefe havia nos liberado na primeira barreira, eles riram muito e disseram que o chefe estava ali, apontando para a caminhonete. QUE MEDO!!! Mas o chefão lá da caçamba da caminhonete apenas fez um sinal para prosseguirmos de nos desejou boa viagem, expressando sua amizade com o Brasil e brasileiros.
Agora sim tínhamos a estrada livre de verdade. E sem movimento algum graças às barreiras em Tupiza.
O traçado da estrada era muito legal, o asfalto bem bom e sem buracos e a paisagem devia ser muito linda se houvesse luz para vermos alguma coisa. Já era quase 2100h quando chegamos em Potosi, que é uma cidade grande.
Esqueci de mencionar mais um detalhe importante sobre viajar na Bolívia. O GPS funciona, mostra nossa localização, mas não navega. O programa não calcula rotas. Isso deixa as coisas mais complicadas. E em Potosi nós vivemos o máximo desta complicação, ainda mais porque já estava escuro e o movimento era bem grande (hora do rush).
Na entrada da cidade, eu coloquei o endereço do hotel e a nossa localização na tela do GPS e tentei imaginar uma rota. Vendo de fora, a cidade parecia ter um traçado regular com quadras bem definidas.
Criamos coragem e entramos na cidade. Já na primeira quadra eu levei um susto quando veio um ônibus para cima de mim. A rua era super estreita e não havia espaço para a moto e o ônibus passarem. Entei em uma guia rebaixada e o ônibus passou raspando por nós. Aí eu entendi. A cidade é antiga então as ruas são muito estreitas, dando passagem para apenas um veículo. E todas as ruas são mão única.
Sabdndo disso, passamos a andar algumas quadras, parar, abrir a localização do hotel no GPS e planejar a próxima quadra. Com calma e com uma estratégia definida não demorou muito para encontrarmos o hotel, que era uma casa grande e antiga, que abriga o Cyber Café mais alto do mundo.
Fizemos o checkin e estacionamos a moto. Quando chegou a hora de levar as bagagens para o quarto, caiu a ficha. Estávamos a 4100m de altitude e subir 2 lances de escada era um desafio e tanto. Faltava ar. Quando finalmente nos instalamos, já estava bem tarde, e estávamos com fome. Decidimos sair o mais rápido possível e deixar o banho para depois.
Perguntamos à dona do hotel sobre opções de restaurante nas redondezas, e que para nós seria difícil andar muito longe naquela altitude. Por sorte, o hotel servia um rodízio de massas e a gerente preparou uma rodada para nós. Foi muito bom!
Depois do jantar fomos tomar banho e dormir exaustos. Você achou que este dia teve muita aventura e adrenalina? KKKK, que nada!
Você não perde por esperar o que vem nos próximos capítulos...
Muito bom Marcelo relembrar essa aventura, estou revivendo cada trajeto... mas só não lembro do Luiz nervoso, talvez ele estava brincando. Kkk
ResponderExcluir