Vättern Rundan
A Suécia é um país em que se valoriza muito a natureza e as atividades ao ar livre. Muitas vezes são competições, mas normalmente são um misto de competição com evento social e passeio. O país tem diversos eventos deste tipo como a Maratona de Estocolmo, a Meia Maratona de Gotemburgo (Göteborgs Varvet – fiz duas vezes), a Vasa Löppet (cross coutry ski) e finalmente a Vättern Rundan.
Este texto é
sobre minhas duas participações nesta prova de ciclismo com 315km em volta do
lago Vättern, o segundo maior lago da Suécia em superfície e o primeiro em
profundidade. O Vättern é tão fundo que era usado para teste de submarinos para
a marinha da Suécia.
A Vättern
Rundan acontece todos os anos quando a primavera já se encaminha ao verão e os
dias são bem longos. A largada e chegada são na cidade de Motala, perto de
Estocolmo. Nesta época do ano normalmente escurece depois das 22h e fica
claro antes das 03h da manhã. Mesmo com quase 19 horas de claridade, não se
pode confiar no clima da Suécia. A temperatura, umidade, precipitação e
velocidade do vento podem variar muito, e isso explica o fato do tempo e clima serem os principais assuntos de conversa naquele país.
A figura
abaixo mostra a altimetria da Vättern Rundan, que é muito organizada e tem
todas as informações históricas documentadas na Internet.
O mapa do percurso, como o nome
diz, é o contorno do lago Vättern.
Eu
participei desta prova em 2003 e 2004. Como na época eu morava em Gotemburgo,
eu colocava a bicicleta no porta-malas da minha V70 e dirigia os 270km até
Motala durante a tarde de sábado (a prova é sempre de sábado para domingo).
Chegando lá, estacionava o carro e descansava um pouco até meu horário de
largada.
Em 2003 eu
fiz a inscrição logo nos primeiros dias e com isso minha largada foi às 2006h, conforme figura abaixo.
No horário da largada ainda estava claro e ensolarado. A temperatura era confortável, de 12 a 15 graus, e durante toda a prova não esfriou muito. O vento estava fraco e a noite estava muito agradável. Com este tempo bom, as pessoas saem de casa para passear e assistir ao evento. Durante muitos km éramos acompanhados pelos gritos de apoio, em Sueco, que soam como RRRÁ e RREI-RRÁ.
Como
esta prova é uma competição oficial, a organização coloca pontos de
alimentação, descanso e hidratação a cada 30km. Os participantes não são
obrigados a parar em todos os pontos, mas muita gente decide parar e
confraternizar enquanto descansa um pouco, toma água, suco, chá, café ou
Gatorade, come banana, pepino azedo ou sanduíches. Cada parada é uma festa.
Lembro que passei
direto na primeira parada porque eu estava me sentindo animado com a corrida. Gränna,
o segundo ponto de apoio depois de mais de 70km percorridos, é uma cidade
famosa pelos doces artesanais e atrações turísticas no lago e na ilha homônima.
Como larguei cedo e passei por Gränna lá pelas 22h, ainda não estava totalmente
escuro e a torcida estava muito animada. Foi uma festa! Parei e me banqueteei a
valer!
Depois de Gränna foram mais 40km até Jönköping, que marca a metade a prova. De Motala a Jönköping a gente pedala para o Sul e a partir desta cidade começa o pedal para o Norte. Como o vento em 2003 estava fraco, esta mudança de direção não teve muita importância, mas normalmente o vento sopra do Norte.
Em Jönkoping a organização oferece muitas opções de
lanche gratuito, com destaque para o cachorro-quente Sueco (Korv) e ali também
há camas para descansar e massagem para quem precisar. Como eu não estava
cansado, apenas comi um sanduíche, uma banana e um Gatorade e segui viagem.
De Jönköping
até Hjo são mais 70km e tem um ponto de apoio intermediário, mas pedalei direto
até Hjo, que também é um ponto especial na prova. Cheguei em Hjo nas primeiras horas da manhã de domingo, e a alimentação da manhã tem que ser reforçada. Em Hjo eles servem sopa,
macarrão e lasanha. Eu comi uma lasanha e mais um Gatorade e segui viagem
depois de descansar um pouco.
De Hjo até
Motala ainda são 120km de pedal e o cansaço psicológico começa a pegar a partir
deste ponto. Quando planejamos a prova, conversando com pessoas do escritório,
a parada em Hjo é sempre muito comentada e fiquei com a impressão que depois
desta cidade seria um pedalzinho curto até Motala. Mas não é assim, são mais
60km para o Norte e 60km para o Sul, com 4 pontos de apoio intermediários. E
nesta parte final eu precisei de apoio em todas as paradas. Lembro que cheguei em Motala
bem cansado, às 0730h da manhã com o sol brilhando forte, e completei a prova
em 11:33h. Foi um tempo muito bom para 315km, com média superior a 27,3km/h. E nem foi tão difícil assim. Depois da prova, dormi um pouco no
carro e voltei dirigindo para Gotemburgo, feliz e orgulhoso.
Foi com a lembrança dessa sensação positiva que me inscrevi para a Vättern Rundan de 2004. Só que
naquele ano eu estava viajando bastante, preparando a mudança para a China, e só
consegui me inscrever num dos últimos dias. Como castigo, a largada foi 0134h,
no meio da noite Sueca.
O dia da
corrida foi igual ao ano anterior, com 270km dirigindo de Gotemburgo a Motala
no sábado para aguardar a largada. Mas a longa espera no estacionamento foi bem
desgastante e depois que escureceu o tempo começou a virar. A temperatura
baixou muito, começou a chover e o vento Norte foi ficando cada vez mais forte.
Enquanto eu esperava, eu via os Suecos num frenesi de conversas e preparações.
As pessoas compravam sacos de lixo para vestir, colocavam meias feitas de sacos
plásticos, vestiam diversas camadas de roupas e mostravam preocupação. Eu
fiquei tranquilo no alto da minha ignorância, lembrando da minha ótima
performance na prova de 2003. Afinal, 6 graus não é tão frio assim...
Pelo
resultado da prova dá para entender que 2004 foi mais difícil, mas a diferença
de 2 horas em 315km não é proporcional ao perrengue que foi essa pedalada.
Quando eu
larguei, no meio da noite, estava chovendo e ventando com temperatura de 6
graus. Mesmo assim confiei que me aqueceria e que teria energia de sobra para
concluir bem a prova. Mesmo com o vento Norte ajudando de Motala até Jönköping,
piorei o tempo porque tive que parar mais vezes e por mais tempo para me
aquecer. Depois de Jönköping, com vento de proa e chuva a coisa complicou
mais. Meus pés congelaram e eu tive que descer da bicicleta para caminhar
algumas vezes para esquentar os pés. Em Hjo, comi e bebi o que
tinha de mais quente e descansei bastante. Mesmo assim, o trecho até Medevi foi
MUITO PESADO. Demorei quase 5 horas para percorrer os 100km no frio com o
vento me segurando. Depois da parada em Medevi, já era tarde de domingo e o vento passou a me ajudar. Com isso, consegui aumentar o ritmo para chegar em Motala mais
animado. Só que dessa vez não consegui dormir no carro porque eu estava
encharcado até os ossos. Troquei de roupa, me enxuguei um pouco e dirigi de
volta para Gotemburgo porque já estava ficando tarde. Cheguei em casa exausto!
Agora tenho
que fazer mais uma Vättern Rundan para tirar a teima!




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