Vai Explodir a Casa



Meu pai trabalhava duro no banco, e ele via o telefone como um portador de más notícias e encrencas. Sendo assim, ele relutou muito até colocar um telefone em casa. Nossa família ainda estava sem comunicação com o mundo até meados dos anos 70, quando o telefone já era algo trivial na maioria dos lares.

Quando finalmente o telefone chegou lá em casa, me causou uma febre de trotes e brincadeiras. Mas meu pai tinha um objetivo bem concreto para incluir esta tecnologia em casa. Ele estava prestes a se aposentar e planejava viajar bastante com minha mãe, e o telefone seria um canal de comunicação com os filhos.

Como filho mais velho, na época com 14 anos, eu não tinha capacidade de ficar sozinho em casa cuidando dos meus irmãos de 12, 11, 4 e 5 anos. Para resolver, meu avô Delfino e avó Zezé ficavam cuidando da gente nos dias que meus pais estavam viajando.

Meus avós eram pessoas simples, cândidos e inocentes. E eu era um piá diabinho cheio de energia vontade de aprontar travessuras.

Minhas tardes eram cheias de aventuras com meus amigos da Skina, principalmente o Carlos (Gambá) e o Edson (Fubá). Nós passávamos a tarde na casa do Carlos, andávamos de bicicleta, tomávamos o chá frio e super adoçado preparado com carinho pela Dona Hilda, pegávamos a saída dos colégios para ver as gatinhas e aprontávamos muitas travessuras. Todos as tardes nós íamos na Padaria tomar uma Coca-Cola. Lembro que eu tomava a garrafa em um só gole, tão rápido que doía a cabeça (“brain freeze”).

Uma dessas tardes em que meus pais estavam viajando, eu tive a ideia de passar um trote nos meus avós. Meu avô atendeu o telefone e falamos que éramos bandidos, que tínhamos colocado uma bomba relógio na casa para nos vingar. Tentamos ser bem aterrorizantes e, depois de desligar, demos muita risada e esquecemos o assunto.

Quando voltei para casa, já estava quase anoitecendo. Acho que haviam passado mais de quatro horas desde o trote, e eu já tinha até esquecido a brincadeira.

Para minha surpresa, encontrei meu avô, minha avó e meus 4 irmãos em pé defronte à casa, do outro lado da rua e cansados de ficar olhando para a casa com olhares assustados. Os pequenos ainda estavam chorando.

Perguntei o que era e eles me contaram da ameaça de bomba.

Fingi indignação e assumi um papel de herói, entrando para revistar a casa e desarmar a suposta bomba. Esperei um tempinho antes de sair para chamar a família assustada dizendo que não achei bomba alguma e que devia ter sido um trote de algum desocupado.

Consegui fazer tudo isso sem rir e sem que ninguém desconfiasse da autoria do trote. Acho que até hoje, mais de 40 anos depois, não contei a ninguém.

Que sem graça.... 

Comentários

  1. Eu lembro dessa história da bomba sim! A vó ficou muito assustada mas lembro q o vô não muito, por isso não lembro da gente ficar tanto tempo fora de casa! E desculpe estragar o final mas já sabia q tinha sido vc 😂! Era bem típico de vc esse tipo de coisa! Mas alguns outros trotes q vc passou foram bem mais sérios 😬

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  2. Concordo com a Mari. O vô não acreditou e suspeitou que era armação sua. A vó arqueou os lábios para baixo 😦 e arregalou os olhos. Ri muito! 😂😂

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  3. 🤣🤣🤣 Eu sou um anjo comparado ao que vc era pai!!!

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