O Feio

 



A turma do Bacacheri tinha muitas figuras notáveis e apelidos pitorescos.

O Dirceu morava perto da minha casa, numa casa simples perto do CR Almeida. Mas ninguém o conhecia pelo nome. O Feio tinha esse apelido porque ele era super magro, tinha cabelos louros crespos e desgrenhados, tinha os dentes desalinhados e sempre sujos, e fazia questão de ser o Feio mesmo.

Ele era um cara muito esperto, cheio de truques, e sempre procurando tirar vantagem a qualquer custo.

Quando éramos pequenos e andávamos de bicicleta, o feio sempre levava o cachorro dele junto equilibrado na magrela. E o cachorro se chamava Brown. Volta e meia ele aparecia com um Brown novo. Mudava o cãozinho, mas o nome era sempre o mesmo.

O Feio foi também um dos primeiros da turma a trabalhar como Office Boy e não demorou para ele descobrir um jeito de fazer dinheiro. Ele dizia que faturava bastante com ‘cachorro’. Algumas vezes eu o ajudei a ir ao banco para pagar contas da firma. Um dos segredos da eficiência do Feio era recrutar amigos para fazer parte do trabalho dele.

Uma vez, o Feio e eu conhecemos duas irmãs, primas do Beto Formiga. A mais velha tinha a nossa idade e se chamava Elisa e tinha o apelido de Galisa – Galinha Elisa. O Feio era louco por ela. A mais nova era bem mais novinha. Eu não sei a idade dela, mas acho que era uns 3 anos mais nova que nós. Ela era a minha namoradinha, mas eu ficava com a Galisa também. Pedalávamos todas as tardes do Bacacheri até a Vila Ipiranga (chamavam de Vila Ái Paranga) para ficar com as meninas, até que o pai delas, outro tio do Beto Formiga, descobriu e deu um fim na brincadeira.

Os ‘cachorros’ do Feio rendiam tão bem que não demorou muito para ele comprar uma motocicleta. E não era qualquer cinquentinha ou Garelli. Ele comprou uma Yamaha 100, azul e branca, zero km. A RD100 era considerada uma moto grande na época, e só perdia para a Honda 175 do tio do Beto Formiga (o Beto tinha uma Garelli).

Outras coisas que o Feio fazia e sempre tentava puxar a gente para fazer junto era roubar carrinhos de autorama nas Lojas HM, roubar Jeans na loja Buttocks (vestindo várias peças umas sobre as outras) e roubar bicicletas estacionadas perto de lojas ou bares.

Eu tinha muito cuidado em não levar o Feio lá em casa porque certamente ele iria roubar alguma coisa.

Com o passar do tempo, os roubos se juntaram ao consumo de álcool e drogas, principalmente maconha, e o Feio foi ficando cada vez mais maluco, falando coisas sem sentido e rindo sozinho.

As drogas foram afastando os amigos até que, aos poucos, ele desapareceu das nossas vidas. Não sei que fim levou o Feio.

Que sem graça...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Peru 2017 P9: Cusco a Nazca - Montanhas

Meu Amigo BILO