Carrinho de Rolamento Copersucar
Acho que nem
todo mundo sabe o que é um carrinho de rolimã. O chassi é uma tábua, tem um
eixo fixo atrás e um eixo móvel na frente que serve como direção. Na ponta de
cada eixo é montado um rolamento velho/sucata. Os mais sofisticados montam
vários rolamentos, um dentro do outro, para maior velocidade. Os mais simples
usam os rolamentos de esferas enferrujados mesmo. Este é o meu caso. Existem
outras sofisticações, como montar um volante de direção acionado por cordas e
um sistema de freio. Eu usava os pés como direção e a Kichute velha tinha que
ser o freio. Nem precisa dizer que o carrinho de rolimã era um destruidor de Kichute.
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Na minha infância usávamos o carrinho de rolimã para descer as ladeiras perto de casa. Dependendo do asfalto, podia correr bastante, fazia um barulho infernal e era muito divertido. Com a popularização da brincadeira, a prefeitura de Curitiba criou espaços dedicados aos carrinhos de rolimã, provavelmente para tirar as crianças do meio dos carros. Tinha uma ladeira grande no Jardim das Américas (que eu nunca conheci) e uma ladeira bem legal no Parque São Lourenço, onde passei tardes divertidas com meus amigos.O carrinho
de rolimã era um esporte que só andava morro abaixo. A subida tinha que ser
a pé, puxando ou carregando o carrinho. O carrinho de rolimã era muito popular
antes do skate dominar as ladeiras. O skate é muito mais emocionante porque
andamos em pé e é mais leve para carregar ladeira acima, então fica claro o
motivo do sucesso.
No auge da
popularidade do carrinho de rolimã, os adultos fanáticos pelo brinquedo
organizavam eventos mais elaborados. Um desses eventos era a descida da Estrada
Graciosa em carrinho de rolimã. E numa ocasião, não sei como, acabei me inscrevendo
num desses eventos.
Meus amigos me convidaram para participar desta descida da Graciosa em 1975, na época em que o Emerson Fittipaldi participava da Fórmula 1 com a equipe Brasileira e corria no carro prateado Copersucar. A descida da Graciosa contava com centenas de participantes. Eu entrei de gaiato, sem noção alguma sobre o evento.
Meu carrinho do São Lourenço não estava preparado para uma prova tão importante, então cortei uma escada velha da construção lá de casa para fazer o chassis de um novo carro. Usei o que sobrou da escada para montar o eixos traseiro fixo e fiz também eixo dianteiro articulado.
Como capricho, já que havia tempo até o dia da corrida, fiz um sistema de direção acionado por cordas e usei uma tampa de lata como volante. Desmanchei algumas latas de tinta e moldei uma carroceria parecida com o Fórmula 1 do Emerson Fittipaldi. Fiz até um banco reclinado com um pedaço de tábua. No fim, o carro ficou enorme e muito pesado. Tinha quase 2 metros de comprimento. E os rolamentos também eram bem grandes. Comprei tinta alumínio e pintei o carro, desenhando até as faixas coloridas para imitar o Copersucar 1975 do Emerson Fittipaldi. Ficou muito bonito e chamativo!
No dia da corrida estava chovendo na serra (sempre chove). Acho que haviam umas 200 pessoas na largada, mas o meu carro se destacava porque era o maior de todos. As pessoas ficavam olhando e eu ficava orgulhoso. Achava que estava agradando. SQN.
Logo após a largada, descobri que o sistema de direção com cordas não servia para aquele percurso. Haviam muitas curvas fechadas e era necessário manobrar muito rápido, o que não era possível com as cordas. Tive que colocar os pés para fora para dirigir.
Comecei devagar, mas logo estava embalando, graças ao grande peso do carro. E eu quis aproveitar essa vantagem. Vi um menino num carrinho bem pequeno com rolamentos minúsculos e pensei em tirá-lo da pista. Abalroei o menino e meu Copersucar perdeu o controle. Saiu rodopiando pelo asfalto até bater no barranco. Dois rolamentos caíram. O menino continuou a corrida e ficou olhando para mim, caído lá atrás, sem entender nada. Quando terminei de consertar o Copersucar, todos os competidores já tinham passado. Continuei a descida sozinho e cheguei em último lugar, tão atrasado que perdi a carona nas caminhonetes que levavam os competidores serra acima. Subi o morro a pé, puxando aquela geringonça por mais de 3km.
Quando cheguei no alto da serra, todo molhado, meus pais estavam lá esperando. Eles tinham decidido ir assistir à corrida, mas não me avisaram. Depois de rir muito mas, eles mas não me deram carona porque eu estava suado e fedorento. Voltei na caçamba da caminhonete com o Seu Vico.
Logo depois desta corrida, os skates tomaram o lugar dos carrinhos de rolamento. Eu tinha um skate Torlay (uma porcara) e quase sempre caía no fim da descida da Avenida Paraná. Minhas pernas tremiam com a vibração do pavimento e o shimming me derrubava antes de completar a descida. Eu era um dos mais corajosos da turma, e não tinha medo de cair.
Depois disso, vieram os filmes do John Travolta e começou a moda dos patins. Desmontei meu skate Torlay, adicionei outra sucata de skate e um velho tênis de couro para fazer um par de patins personalizado. Quando eu tinha dinheiro (o que era raro), eu gostava de ir ao rink de patinação.
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