Lampião e Gambá

 


As férias de verão são muito longas e divertidas para aqueles que só comem, dormem, estudam e se divertem.

Meus amigos e eu passávamos as tardes às margens do Rio Bacacheri, nos fundos da Ordem Rosacruz, num cantinho carinhosamente batizado “Puta que Pariu City”.

Esse cantinho tinha árvores frondosas dos dois lados do rio que se originava no vertedouro do Tanque Bacacheri e alguns galhos chegavam quase a atravessar o rio. Nós tínhamos uma corda amarrada num desses galhos que servia como balanço e como um meio para atravessar o rio. Só que a travessia pela corda era perigosa e era comum alguém cair no rio e ir para casa todo molhado.

Era muito gostoso ir pegar peras num terreno baldio perto do tanque. Aquele local devia ter sido uma chácara porque as pereiras eram dispostas em linha e qualidade das frutas era excelente. Depois dessa época, nunca mais e achei peras tão suculentas e saborosas. Nós enchíamos as pernas das nossas calças ‘boca de sino’ de tergal colorido. As calças eram tão largas que cabia quase 5kg de peras em cada perna. Depois da colheita, comíamos até não aguentar e então fazíamos uma guerrinha com as peras que sobravam.

Algumas vezes pescávamos no rio apanhando os peixes nas tocas, enfiando as mãos sob as pedras no fundo do rio. Esta pesca era chamada de ‘toquear’. Era difícil, mas sempre conseguíamos algum cascudo ou acará. O único susto era quando achávamos uma cobra d’água embaixo da pedra.

Nos dias de pouco movimento para aluguel de barcos, e quando o ‘Negão’ do Tanque estava de bom humor, ele deixava a gente usar algumas das canoas para passear. Remávamos por todo o tanque e brincávamos de batalha naval e de jogar água nos outros. Se alguém desse bobeira acabava com o remo roubado pelos inimigos e tinha que voltar para a margem remando com as mãos. Num desses dias, meu amigo enroscou os dedos num chumaço de cabelos que estava colado em uma cabeça de mulher morta. Ficamos bem assustados e avisamos a polícia. Foi bem tenebroso. O Tanque do Bacacheri fica perto dos quartéis, a região tinha muitos soldados e muitas prostitutas, e a ocorrência de mortes não era rara.

E assim passávamos o verão, cada dia com uma brincadeira diferente e sempre aprontando molecagens.

Certa vez, dois bandidos de verdade, Lampião e Gambá, provavelmente fugidos da cadeia, se aproximaram da nossa turma. O Lampião, baixinho e musculoso, era o chefe. O Gambá era mais alto e mal encarado. Eles eram mais velhos que nós e deram a ideia de construirmos uma casa na árvore. Montamos uma casa bem grande. Foi divertido. O Lampião e o Gambá passavam as noites naquela casa.

Depois de muitas semanas, a casa já estava ficando velha. O Lampião subiu na casa da árvore, seguido pelo Gambá. Ao entrar ele gritou ‘quem jogou esse marrão aqui?’  quando pisou num monte de merda. O Gambá riu muito e falou ‘fui eu, Lampião, pra sacanear a piazada’. O Lampião nem deu tempo ao Gambá para terminar a frase e jogou o amigo de cima da árvore e desceu correndo atrás dele. Os dois saíram correndo pelo mato e nunca mais voltaram.

Não sei que fim levaram...

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