Motocicleta CZ sem ano, sem cor, sem modelo...sem nada

A CZ 125 foi minha primeira moto. Só que não tenho certeza se que aquilo era uma moto.

Meu pai sempre gostava de contar suas aventuras na juventude, quando ele desbravava as estradas de chão do Paraná numa moto Panther junto com o amigo Armando Louco na sua Puch (fotos abaixo). Estas histórias me fascinaram e acenderam uma forte por motocicletas.





Quando meu amigo Kriger comentou que tinha uma moto e que aceitaria um filhote de pastor alemão em troca, topei na hora. Eu tinha uns 14 anos e o Kriger, mais velho, tinha uns 20 anos. Não sei quem montou a moto e nem de onde vieram as peças. A coisa era um Frankenstein tipo Cafe Racer Custom montada com sucatas. O motor tinha marca CZ125, o banco era uma jaqueta de courvin preto, o garfo dianteiro, o guidão e a roda dianteira eram de uma bicicleta Monark Tigrão e a roda traseira era de um avião. Morávamos perto da base aérea do Bacacheri e era possível achar pneus velhos de avião no lixo do aeroclube. O resto das peças é de origem desconhecida. O quadro e o tanque da moto haviam sido soldados com sucata de tubos de aço e pintados com tinta preta. A moto não tinha suspensão nem escapamento. A caixa de câmbio é uma história à parte. A primeira marcha só entrava com um chute para baixo e para trás, a segunda, que sempre escapava, era engatada com um coice para cima, e a terceira marcha era a única que funcionava, mas usei poucas vezes. O acelerador era um manete de freio de bicicleta sobre o guidão, voltado para cima. Deste modo, a moto ficava em aceleração máxima quando eu segurava o guidão e sem potência quando eu soltava o manete. Acelerador binário, tipo ‘tudo ou nada’. A embreagem era na mão esquerda e funcionava direitinho. 

Esta moto só tinha um detalhe: o motor não funcionava, de jeito nenhum. Com isso fica fácil entender a oferta do Krieger de dar a moto em troca de um filhote de cachorro, mas o caso do roubo do filhote lá de casa para dar em troca da moto é uma outra história...

A missão impossível era ligar aquele motor. 

Meu pai me tirava o maior sarro dizendo que nunca iria funcionar. Sem conhecimento de mecânica, e principalmente sem aceitar o impossível, desmontei tudo o que consegui, limpei e montei de novo. Estudei e perguntei a várias pessoas. Meu pai me explicou que o motor funciona com uma combinação de ar, combustível e faísca na quantidade e momento certo.

Desmontei e montei o carburador diversas vezes, pois era o único componente que eu tinha algum conhecimento. Seguindo dicas do meu pai, acertei o ponto da faísca com uma chave de fenda, limpei e ajustei a folga do platinado, limpei a vela e confirmei que tinha faísca, tomando vários choques no processo. Quem já tomou um choque na vela de ignição sabe o tamanho do coice...

A moto não tinha pedal de partida, então as tentativas eram bem exaustivas. Eu empurrava a moto morro acima tentava ligar no tranco enquanto descia a rua. Meus irmãos pequenos me ajudavam, curiosos e assustados. Minha mãe não se incomodava, já que o motor não funcionava e a moto mantinha meus irmãos e eu ocupados e longe de encrenca.

Insisti por várias semanas, e não desisti até fazer a moto funcionar. Como precisava força, eu empurrava e o Fernando, então com 6 ou 7 anos de idade, pilotava. Uma manhã, eu empurrei forte e, repentinamente, inesperadamente, o motor funcionou. 

A moto saiu em disparada com o Fernando em cima, mas o inocente não sabia pilotar e não estávamos preparados para uma moto desgovernada. Tinham sido tantos dias de tentativa frustrada que não havíamos nos preparado para o sucesso.

Quando o motor ligou e a moto disparou, eu perdi o equilíbio e caí no chão. A moto foi embora e apareceu um caminhão de bebidas lá na esquina vindo direto para cima do Fernando. Foi aí que o anjo da guarda entrou na jogada. O Fernando, que não sabia nem andar de bicicleta, caiu no gramado e, fora o susto, nada mais aconteceu. Eu fiquei tão entusiasmado com o funcionamento do motor, que nem reparei no perigo para meu irmãozinho, mas ele lembra bem o episódio. 

Depois de mais alguns ajustes finos, o motor passou a pegar fácil comigo no comando. Que orgulho!

O motor CZ foi apenas o primeiro dos obstáculos para meus passeios de moto! Eu abastecia o "tanque" com um copo de mistura de gasolina com óleo 2T. Colocando mais de um copo, a gasolina vazava pela torneirinha do tanque. Eu diminuí o vazamento usando um pedaço de corda velha para vedar a rosca espanada do tanque (aprendi com o encanador Gamelique - mas esta é outra história). 

Em cada passeio, eu empurrava a moto morro acima e ligava na descida, pilotando e apreciando o vento por uns poucos minutos até a gasolina acabar. E sempre voltava para casa empurrando a moto com um sorriso no rosto e fedendo suor, gasolina, óleo e poeira. Minha mãe não se preocupava porque sabia que aquela moto não ia longe.

Outro problema desta moto, que eu não consegui resolver, era a relação de transmissão. A coroa era velha, com os dentes totalmente desgastados e o pinhão tinha um passo diferente, que também não combinava com a corrente. A relação patinava muito e limitava a velocidade da moto. Para minimizar o problema, eu esticava a corrente ao máximo.

A moto não tinha cano de escape, e o motor 2 Tempos fazia um barulho infernal. A vizinhança logo começou a reclamar. Ameaçaram até chamar a rádio patrulha...

Meu pai explicava que o escapamento correto aumentaria o rendimento do motor. Seguindo as dicas paternas, improvisei um silenciador com duas latinhas de massa de tomate Elefante recheadas de Bom-Bril e amarradas com arame às saídas de escape do único cilindro. O abafador funcionou, mas o Bom-Bril logo pegava fogo e soltava faíscas para todo lado. A solução foi substituir o Bom-Bril por palha de aço grossa, que abafava menos o barulho porém não pegava fogo, porque meus passeios eram curtos e rápidos devido ao vazamento de gasolina.

Apesar dos defeitos, era um grande prazer pilotar aquela moto. Eu andava mais rápido que qualquer Garelli, Velosolex ou Mobillete dos meus amigos. O motor 125cc da CZ era veloz!

Uma tarde, achei que todos os problemas estavam resolvidos e a moto estava apta para uso normal. Neste dia, colcoquei gasolina extra, aumentei a pressão do pneu dianteiro, que andava sempre murcho, e saí de casa decidido a 'dar um couro' na Garelli do Beto Formiga. 

Nos encontramos na Skina e ele topou o desafio. Subimos para a Vila Tingui e alinhamos as máquinas no alto do morro. A corrida na descida seria mais emocionante. Saí na frente e comecei a abrir vantagem, mas o Beto me alcançou e estávamos emparelhados em velocidade máxima quando o pneu dianteiro cheio fez a diferença. A frente da moto começou a pular e o guidão trepidava para os lados num shimming incontrolável a 60km/h. Eu continuei acelerando (lembre que para desacelerar tinha que soltar o guidão) e segurei a moto com força até o fim, quando o garfo dianteiro de Monark Tigrão quebrou me arremessando por cima do guidão. 

Eu vestia apenas bermuda e camiseta, não usava capacete. O manete do acelerador abriu um buraco na minha cabeça e caí de costas, deslizando vários metros sobre o cascalho até parar. O atrito destruiu minha roupa. Só lembro que ao levantar, tirei o relógio e joguei-o no chão (nunca entendi isto).

O tombo aconteceu na frente de uma escola, onde havia uma enfermaria. As professoras, enfermeiras improvisadas, me arrastaram para dentro da escola. Quando dei por mim elas haviam limpado minhas costas, raspado um pedaço da minha cabeça e costurado o buraco da cabeça com dois ou três pontos.

Enquanto eu estava sendo medicado, minha mãe passou de carro em frente ao local do acidente, voltando do trabalho. Ela viu a moto caída e meus amigos em volta com cara de velório. No seu otimismo típico, ela nem imaginou que o acidentado era eu. Afinal, quantas motos com pneu de avião rodavam pelo bairro?

Depois deste tombo, meu pai me fez 'dar um fim' na CZ. Minha primeira experiência motorizada não havia durado muito, e os vizinhos certamente ficaram aliviados.

Mesmo assim, consertei a moto e coloquei à venda. Não demorou muito para meu amigo Fontana oferecer uma vitrolinha e um toca fitas em troca da moto, e eu aceitei a proposta com muito gosto. E o Fontana, feliz, levou a CZ125.

Depois de alguns dias, me contaram que a moto havia sido destruída em um incêndio. O Fontana havia saído para um passeio mais longo e a palha de aço do abafador pegou fogo com o calor do motor. A chama se alastrou para o tanque de gasolina e incendiou o restante da moto. Me contaram que foi uma fogueira enorme e que não sobrou nada da CZ 125. A sucata virou sucata, definitivamente. Esta foi minha primeira moto. Meu pai sempre tirava sarro de minhas trocas com a estória do menino e do pirulito. Desta vez, voltei para a bicicleta.


Comentários

  1. Adorei a história Marcelo, lembro dessa moto e do barulho infernal descendo a rua! E a história das trocas q viram picolé então !! Muito boa!

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  2. Haha Finalmente foi desvendado o mistério desta história!! Adorei a leitura "tensa"!!!

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