Eu e os Esportes


 

Quando penso na minha pessoa como esportista, me vem à mente a figura de um jaboti subindo numa árvore. Eu nunca fui do tipo esportista. Quando criança eu era muito magro e depois de adulto eu era muito gordo. Agora aos 60 anos e aposentado resolvi encarar o desafio de completar um Short Triathlon.

Mesmo sem os atributos físicos de um atleta de elite, eu sempre gostei de atividade física.

Aprendi a andar de bicicleta aos 8 anos e no mesmo ano reinei e insisti com meus pais, deixando-os quase loucos, até que ganhei minha primeira bicicleta no Natal de 1968. Era uma Caloi Berlineta aro 20” alaranjada cor de táxi com detalhes em branco. Essa foi minha primeira bicicleta e passei muitos e muitos dias pedalando nela. Eu adoro a pedalar!

Depois de alguns anos, troquei a Berlineta por uma bicicleta aro 28” para conseguir mais velocidade e ir mais longe. Nesta época eu estava no Ginásio e o Colégio Santa Maria levava os esportes muito a sério. Eu sempre fui um desastre nos jogos em equipe, mas acabei me destacando um pouco na corrida, tanto que fui convidado a competir nos 100m rasos e 400m rasos. Fiquei muito entusiasmado na época, mas não sabia como treinar. Lembro que no dia da prova dos 400m eu fiquei correndo, treinando em casa, durante o dia inteiro. Na hora da prova, à tarde, eu fiquei sem fôlego e não consegui me classificar.

Algum tempo depois aconteceu o lançamento da Caloi 10. Fiquei louco pela novidade e, novamente, infernizei meus pais até que ganhei minha Caloi 10. A bicicleta era fantástica, mais fácil de enfrentar as subidas e mais rápida no plano e nas descidas. Comecei a pedalar mais rápido e mais longe ainda.

A Caloi 10 me colocou numa situação difícil quando sofri um acidente. Era um dia de semana e eu estudava pela manhã. Naquele dia, após o almoço, resolvi pedalar do Bacacheri até o Portão. Quando estava descendo a Rua Barão do Rio Branco em velocidade máxima, atropelei um senhor perto da esquina com a Pedro Ivo. Fiquei tão assustado na hora que tentei fugir em vez de ajudar a pessoa, mas as pessoas que se juntaram para ver o acidente não me deixaram sair. Havia uma delegacia de polícia em frente ao Cine Vitória, a menos de 50m do acidente e foi lá que fiquei detido até meu pai sair do trabalho dele no Banestado e acertar a situação com a polícia e com a vítima para me liberar. Eu tinha 15 anos na época e meu pai nunca comentou nada comigo sobre as consequências do acidente. Deve ter sido mais caro que a bicicleta...

Nessa época, meu amigo Tico Mico e eu resolvemos entrar para a aula de Judô. Começamos no Colégio Nossa Senhora do Rosário e depois mudamos para o Centro Brasileiro, no Juvevê. Esta academia era muito mais séria do que o colégio das freiras. Eu até que me virava legal na luta em pé mas era um desastre na luta de solo. O divertido era praticar os saltos sobre cadeiras e quedas nas mais diversas situações sem se machucar. Nesta época lembro que uma vez caí de costas de cima de um carro e não me machuquei graças às técnicas de queda. Cheguei à faixa Laranja antes de parar, mas a luta de solo realmente não me deixaria progredir mais.

Continuei pedalando pela vida e quando eu tinha uns 17 anos descobri que a prefeitura de Curitiba organizava passeios ciclísticos. Sempre que possível, eu participava. Logo depois descobri que a cidade organizava corridas de rua também e comecei a participar das ‘corridas rústicas’. O problema para mim, na época, era a falta de informação. Como eu não fazia parte de nenhuma equipe, tinha que me informar pelo jornal impresso e nem sempre funcionava.

Quando eu estava na faculdade, resolvi aprender a nadar. Conversei com meu pai e ele, como sempre, disse que era besteira. Mas eu tinha dinheiro do estágio e me matriculei na academia Mobi-Dick de natação.

Cheguei a participar de competição Masters de natação, até que dois acidentes de moto, onde quebrei o pé e depois a clavícula me forçaram a parar de nadar.

Mas depois que melhorei, voltei a nadar no Aquacenter Batel, com o time dos Lobões. Essa equipe era muito entusiasmada pela natação e depois de algum tempo comecei a organizar a travessia a nado de Pontal do Sul para a Ilha do Mel. Os Lobões aderiram em peso e fizemos diversas travessias com apoio dos barcos infláveis da turma da Skina. A primeira travessia foi sem nenhuma técnica nem conhecimento da maré ou condição do mar. Saímos numa condição imprópria, sem toucas e apenas um nadador conseguiu atravessar. O último resgatado foi o Zdebski que ficou nadando contra a corrente, no mesmo lugar, por mais de 2 horas. Nas próximas vezes usamos toucas coloridas, untamos os corpos com óleo e programamos o horário de saída com a maré. Na condição ideal, era possível atravessar e baía em menos de 1 hora. A água da baía é bem escura e uma vez, nadando quase em transe no meio da baía, surgiu um boto ao meu lado. Quase morri de susto!



Mas a turma dos Lobões foi minguando e eu acabei parando de nadar no Aquacenter.

Assim o esporte sempre esteve presente na minha vida, mas nunca foi prioridade. E com o passar dos anos, fui ficando cada vez mais gordo e mais distante do esporte.

Aos 30 anos, no máximo do meu peso, meu amigo Washington da Lorenzetti me convidou para treinar com ele, que também tinha problema com a balança. Nesta mesma época, minha esposa começou a fazer as receitas do Dr. Uchoa, seguindo o livro ‘Só é Gordo Quem Quer’. Então o Washington, o Sr. Manzo e eu nos inscrevemos na academia de natação que ficava perto da Lorenzetti e íamos nadar 45 minutos todos os dias na hora do almoço. A natação, o jejum na hora do almoço e o jantar ‘Dona Fininha’ me fizeram perder peso em pouco tempo. Ao emagrecer, comecei a correr após o trabalho.

Foi assim que o Triathlon surgiu na minha vida. O Washington, o Augusto e eu decidimos treinar e participar do Short Triathlon de Caiobá em 1991. Nesta época eu treinava duas ou três vezes por dia, alternando corrida e ciclismo com a natação todos os dias. Vendi a Caloi 10 e comprei uma Caloi 12. Os resultados começaram a aparecer com melhora nas velocidades nos três esportes até que ficamos competitivos no nosso grupo de idade. Além do Triathlon, fazíamos provas de Duathlon com corrida e ciclismo. Uma vez conquistei o pódio no Duathlon de Piraquara e ouvi o comentário ‘olha o barrigudo no pódio’ na plateia.



Nessa época de natação e Triathlon eu também comecei a participar de provas de Rallye e de Raid de Jipe, sempre como navegador. Foram mais de 10 anos participando de provas automobilísticas, muitas vezes com resultados animadores. Mas o Raid foi se profissionalizando demais e perdeu a graça quando deixamos de ser competitivos.

O maior desafio no Triathlon de Caiobá era conseguir a inscrição. A prova tinha poucas vagas e as equipes e sócios do SESC tinham prioridade. Muitas vezes treinamos o durante todo o ano e não conseguimos fazer a prova por falta de vagas. O último Triathlon que participei foi em 2001, ano em que mudei para a Suécia com a família.

A década de treinos para o Triathlon, Raid de jipe e corridas rústicas foi a época que pratiquei mais atividades físicas. Não por coincidência, foi nestes anos que tive meu melhor desempenho. 

Na Suécia, continuei treinando corrida e ciclismo e aprendi a gostar dos treinos de Spinning graças à minha amiga Ana Rojas. Além de treinar, participei de competições também. Completei duas Göteborg Varvet (meia maratona de Gotemburgo), duas Vättern Rundan (300km de pedal noturno para contornar o lago Vättern) e uma Hisingen Runt (pedal em volta da ilha de Hisingen).

Os treinos de ciclismo na Suécia eram muito seguros e bonitos. Em domingos de verão, eu saía cedo de Frölunda e pedalava até Marstrand, chegando em casa na hora do almoço depois de mais de 100km de estrada. Outro treino gostoso era até Särö, com mais de 40km ao longo da costa sobre o leito de uma antiga ferrovia abandonada.

Duas vezes por semana eu pedalava da minha casa até a academia de Spinning, que ficava a quase 10km de distância e voltava pedalando depois dos 50 minutos de treino forte. Este programa era muito gostoso mesmo com temperaturas negativas.

Depois da Suécia, mudamos para Shanghai e lá era MUITO mais complicado e perigoso treinar pedal e corrida. O esporte praticado pelos brasileiros, e favorito da minha esposa, era o shopping. Mesmo assim consegui fazer alguns pedais de Shanghai até Sheshan (90km ida e volta) e participei da prova de Mountain Bike da Volvo em Beijing, realizado para testar o circuito de Mountain Bike da Olimpíada de 2008.

Quando voltei ao Brasil, no início de 2008, mais gordo e sedentário, voltei a correr com a equipe dos 4ões. Era uma turma muito divertida e nossos treinos três vezes por semana eram focados nas técnicas e desempenho da corrida. Participei de diversas corridas rústicas e provas de meia maratona e cheguei a treinar quase 50km de corrida por semana. Mesmo com todo este treino, não consegui perder peso e não sobrava tempo para treinar mais nada – nem natação, nem pedal, nem nada. E após alguns anos correndo e só correndo veio a inevitável contusão. Quase rompi o meu Tendão de Aquiles e fiquei muitos meses mancando. Demorei quase três anos para recuperar o tendão com sessões de acupuntura e muito Pilates, e agora estou com medo de correr e me machucar novamente.



Após parar com o Pilates, mudei o treino para musculação e spinning, que consegui manter numa disciplina diária às 0630h da manhã por quase três anos até que surgiu a Pandemia do Covid-19.

Outra atividade esportiva que fiz para melhorar minha flexibilidade e para incentivar meu filho Renato foi o Aikido. Esta arte marcial não é considerada um esporte e não organiza competições. O Aikido é encarado como defesa pessoal. Treinamos bastante tempo com o André Nickel, discípulo do Sensei Reinosa, que havia treinado junto com o Sensei Segall (de Hollywood). O estilo Reinosa é bem agressivo e dinâmico, o que tornava as aulas muito divertidas. Meu primeiro e único exame de faixa consistia em cair ao ser empurrado por outros lutadores e levantar-me o mais rápido possível até a exaustão. Neste exame era avaliada a técnica de queda. Depois que o Sensei Nickel fechou a academia, mudamos para outro estilo de Aikido, o tradicional. Este estilo é bem mais lento e tranquilo. Parece até uma dança. Não nos adaptamos porque ficou muito sem graça. Aqui perto de casa tem outra academia de Aikido, mas é o Chi Aikido, ainda mais lento que o tradicional. Um dia eu volto a praticar esta arte marcial, ainda mais sabendo que o Chi Aikido é adequado para idosos.

Durante a pandemia foram vários meses sedentários de home office, trancado em casa e ganhando gordura e perdendo músculos até que resolvi me aposentar, em setembro de 2020. Depois de parar com o trabalho, consegui fazer uma rotina de treinos pela manhã com ciclismo e musculação todos os dias, limitado pelas regras de distanciamento social.

Foi neste momento que o Rafael trouxe a proposta de fazer o Triathlon de Caiobá em 2021. Agora vou começar a me preparar para este desafio de voltar a participar de provas de Triathlon aos 60 anos. Para isso, vou consultar um profissional e planejar meus treinos com muito cuidado para não me machucar e alcançar o melhor desempenho possível.

 

 

 

 

 

Comentários

  1. Que riqueza de vida Marcelo ! Adorei esse recorte esportivo 😄! Parabéns e aguardo os próximos capítulos !

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  2. Que legal Marcelo! Como diz a mãe, só de ler já fico cansada 😓 kkk..Vc é viciado em serotonina, faz bem! 👏🏻👏🏻👏🏻

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  3. Marcelo vc não existe cara - vc é um artista 🤣😂🤣

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